miércoles, 30 de octubre de 2013

Ronald Augusto - Brasil



Y ahí estaba Ronald Augusto, dándole cara a aquella afirmación de Antonio Lobo Antunes ¿Qué decía el novelista portugués? "en un idioma en el cual la música está tan presente la musicalidad tiende a ocultar la poesía"... ¡Bah! poesía y música son la misma cosa, garoto! le decía Ronald a Lobo desde la Plataforma Lavardén, en Rosario, y nosotrxs, en completo vaivén de coro que murmura y acompaña, dejábamos que esa música definiera el instante, el espacio, la cadencia de esos diez minutos a cargo de Ronald. Al finalizar, fui y le dije un galimatías que pretendía expresar el buen momento que pasé al escucharlo. Ronald Augusto, muy amable y risueño volvió a cantar en ese idioma de viento pero en realidad lo que pretendía era sólamente decirme gracias. Nos dimos las manos y su poesía quedó, como toda música, resonando,

outra fera alegórica   

a vaca cor de barro
eu vinha de longe em longe
quando ela me viu
achei no seu olho de boi
um ameaço

havia uma bifurcação
por onde enfiar a esperança
e o temor
ao pé de mim a cada passo
suas bostas

antes deste empate
eu ouvia os sapos
cada coaxar era um buraco
esponjoso de onde um som
de água opaca



otra bestia alegórica

la vaca color de barro
yo venía de lejos a lejos
cuando ella me vio
hallé en su ojo de buey
una amenaza

había una bifurcación
a donde meter la esperanza
y el temor
al pie de mí en cada paso
sus bostas

antes de este empate
yo oía los sapos
cada croar era un bache
esponjoso de adonde un son
de agua opaca

*

5. primeiro 
pode ser que um homem se chame pinheiro
pode ser que este homem se mova
entre pinheiros se
comova de vê-los
se é que é possível estar atento
a qualquer coisa que se mova enquanto o vento
no coque dos pinheiros calmo
geme como se
se prestasse a seda sendo
arrastada através de um espinheiro

segundo
que um homem se inscreva ao ouvir
o chamado: pinheiro
não é de arrepiar os cabelos
nem de pelar pinheiros
para que vento não se perceba em parte
alguma e algum vendo-o
ave empalhada em ramo tateante
não se detenha siga
rumo ao monte



5. primero
puede ser que un hombre se llame pinedo
puede ser que este hombre se mueva
entre pinos se
conmueva de verlos
si es que es posible estar atento
a cualquier cosa que se mueva entre tanto el viento
en el moño de pinos calmo
gime como si
se prestara a seda siendo
arrastrada a través de un espino

segundo
que un hombre se inscriba al oír
el llamado: pinedo
no es de erizarse los pelos                                
ni de pelarse pinos
para que el viento no se perciba en parte
alguna y uno al verlo
ave empajada en ramo tocante
no se detenga siga
rumbo al monte

*

mar marrom na beira onde
as presas da espuma fria

o velho sapo senil encasulado em linho
ou todo de branco
escoltado por um par de nixes
sararás
até a entrada do maximbombo
                                                                                                           
 uma delas esconde
 um sestroso sorriso
 risinho sob a gola da camiseta azul
 os olhos um passo a frente
 dizem o que não os lábios

 a outra torce o beiço
 contrariada por estar às ordens
 de um velho excêntrico e tão limpo e infenso
 à nódoas de lama sórdida
 num dia chuvoso
 como esse



 mar marrón a la vera adonde
 las presas de espuma fría

 el viejo sapo senil encapullado de lino
 o todo en blanco
 escoltado por un par de nixes
 catiras
 hasta la entrada del machimbombo                          

 una de ellas esconde                                            
 una pilla sonrisa                                                        
 risita so el cuello de la camiseta azul                
 los ojos un paso al frente
 dicen lo que no sus labios

 la otra se tuerce el bezo
 contrariada de estar a las órdenes
 de un viejo excéntrico y tan limpio y adverso
 a manchas de lama sórdida
 en un día de lluvia
 como ese

*
achegas antes da solenidade de posse


em todos os teus dias ninguém fará sobre nossa terra
senão o que tu mentalizares
                                     toma do meu coração algum tanto
que sejas esforçado e soca o olho ao tapa-olho


topando com carreirista: taipa e farpa
                                                     mais não pedirá
gran colpe con teu tragazeite se por des
ventura um mocambo de poetas negros afirmando
que deuses têm nariz chato e pêlo duro
parte para o tapa (a chibata já não soa bem
no concerto das nações) e nunca para a rapa


cotovelada nas costelas saúda pelo estabelecimento
a cerimoniosa mulher pública


não consintas em nenhuma guisa que os teus sejam soberbos
nem atrevudos   mudo chuta-lhes o
                                                 baco frasco apenas
concha no lado da orelha


haverás o papa e as gentes
unhaecarnebranca


dá-lhes siempre sus soldadas bien paradas pontapés
joelhadas sem joelheira
punhadas
             pois eles (veja-os de joelhos) sem tais
cuidados perderiam o siso
e quando tocassem no teu nome só diriam injúrias
à base de tortuosa linguagem

Ronald Augusto da Costa (Rio Grande4 de agosto de 1961) é um poeta experimental, inicialmente ligado à poesia marginal, crítico de poesia, editor, músico e letrista do Rio Grande do Sul, sendo um dos editores associados ao website Sibila, criado pelo poetaCharles Bernstein e por Régis Bonvicino, além de ser notabilizado por seus estudos sobre literatura negra.
  • Prêmio Apesul Revelação Literária em 1979.
  • Medalha de Mérito conferida pela Comissão Estadual para Celebração do Centenário de Morte de Cruz e Sousa, Estado de Santa Catarina, por estudo referente à obra do poeta negro catarinense, em 1998.
  • Troféu Vasco Prado conferido pela 9ª Jornada Nacional de Literatura de Passo Fundo, em agosto de 2001.
  • Libros:
  • Negro 3 X negro, co-autoria Paulo Ricardo de Moraes, Jaime da Silva. Porto Alegre, 1992.
  • Homem ao Rubro. Editção Grupo Pró-texto. Porto Alegre, 1983.
  • Disco, co-autoria Hingo Weber. Contravez. Porto Alegre, 1986.
  • Puya. Edição do autor.Porto Alegre, 1987.
  • Kânhamo. Edição do autor. Porto Alegre, 1987,
  • Puya (1987), Editora Biblos. Porto Alegre, 1992.
  • Vá de Valha. Coleção Petit Poa. SMC. Porto Alegre, 1992.
  • Confissões Aplicadas. Editora Ameop. Porto Alegre, 2004.
  • No assoalho duro. Editora Éblis. Porto Alegre, 2007.
  • Cair de Costas. Editora Éblis. Poesia reunida. Porto Alegre, 2012.
  • Decupagens assim. Textos reunidos de publicações avulsas. Editora Letras Contemporâneas. Florianópolis, 2012.